Logo às 5h da manhã na praia do Mucuripe, em Fortaleza, o mercado de peixe oferece várias espécies. Menos lagosta.
"Por hora, acabou-se. Não sei se por causa das cacoeiras, por causa dos mergulhadores, acabou-se a lagosta. Não tem mais, não”, conta o pescador Raimundo Teixeira de Freitas, que vende peixe na praia.
A pesca predatória vem dizimando a lagosta no Ceará. Muitos pescadores não respeitam as normas e apanham o crustáceo antes da idade de reprodução. As cacoeiras, redes muito finas, varrem o fundo do oceano e trazem lagostas de todos os tamanhos. Até os comerciantes de peixe sabem disso. “A pescaria de lagosta parou, porque só tem os pequenos. Aí não dá pra pegar, é proibido”, explica o comprador de peixe Alfredo Ferreira Lima.
O Ibama possui dois barcos para patrulhar os cerca de 500 quilômetros do litoral cearense. O Jornal da Globo pegou carona num deles para documentar a caça aos infratores.
No meio do mar, o fiscal do Ibama aborda uma embarcação suspeita, com redes a bordo. Os pescadores garantem que a rede lançada no mar é de peixe. Desta vez, o Ibama nada encontra. Quando algum material é apreendido, vai parar nos frigoríficos do órgão, em Fortaleza, de onde é doado para instituições de caridade.
O chefe da fiscalização do Ibama no Ceará classifica a pesca da lagosta de “irracional”. Ele mostra um exemplar apreendido: é do tamanho da tampa de uma caneta esferográfica. "A lagosta não está crescendo, não está reproduzindo e eles estão pescando em qualquer tempo", diz Rolfran Ribeiro, chefe da divisão de Fiscalização do Ibama em Fortaleza.
A pesca da lagosta no ceará é permitida de abril a dezembro. Difícil é convencer quem vive disso a respeitar o período de defeso.
Em Fortim, no litoral do estado, a presidente da Colônia de Pesca explica porque outra forma ilegal – e perigosa – é tão popular entre os pescadores: a pesca com compressor de ar. “Uma jangada ou um barco, ele pode trazer 10 ou 20 quilos de lagosta. Mas o compressor, se ele encontrar, traz 100 quilos, 200 quilos", explica Maria de Aquino.
Desta vez, a equipe pega carona num barco de pescadores na região de Acaraú, para ver como é feita a pesca com compressor de ar. A técnica é rudimentar: o aparelho é ligado ao motor da embarcação e bombeia ar através de uma mangueira para o pescador. Ele leva um espeto para pegar as lagostas.
Com uma câmera, um mergulhador profissional registra os movimentos do pescador. A água neste período está turva; é tempo de mar revirado, como se diz no Ceará. O pescador se aproxima do cercado, e começa a apanhar as lagostas. Há de todos os tamanhos.
Atrás da lagosta, alguns pescadores chegam a descer até 40 metros. Quanto mais profundo e longo o mergulho, maior é o risco. O gás nitrogênio se entranha na corrente sanguínea e nos tecidos. Segundo especialistas, é possível permanecer cerca de uma hora ininterrupta numa profundidade de até 18 metros; mas eles não aconselham que o mergulhador passe mais de 25 minutos submerso em profundidades iguais ou superiores a 30 metros.
A volta à superfície deve ser feita de maneira cautelosa. É o momento mais delicado da operação: o mergulhador precisa realizar a chamada descompresão, subir aos poucos, para compensar a diferença de pressão. Se esse tempo não for respeitado, pode trazer muitos riscos para ele.
O mergulhador profissional que gravou as imagens submarinas da reportagem explica ao caçador de lagostas os perigos do nitrogênio. “Esse gás vai formar bolhas no teu corpo. Se for na corrente sanguínea no braço, vai provocar dor. Se for na articulação, vai parar o braço. Se for na cabeça, você pode ter um AVC, se for no coraçãom você pode ter uma parada cardíaca”, alerta o merculhador Marcus Davis Braga.
O pescador conta que já viu o medo de perto. “Já passei apuro várias vezes. Cortaram a mangueira muitas vezes já, quebrou a mangueira em cima e ninguém via, Aí eu subia, apavorado, mas subia”, conta ele. “É arriscado, mas é a vida da gente, nosso trabalho”, justifica.
Nas colônias de pescadores do litoral nordestino ocorrem anualmente cerca de 200 acidentes, segundo o Ibama. A funcionária pública Giselene Rodrigues perdeu o marido na pesca com compressor. "Disseram que ele desceu, e com pouco tempo já subia se sentindo mal. Aí os pescadores que estavam com ele fizeram tudo, mas não teve jeito”, ela lembra.
O sacrifício não tem compensado. Em 2004, uma indústria pesqueira do Ceará chegou a exportar quatro milhões de dólares em lagostas. Agora, decidiu investir no primo menos nobre, o camarão. "Ficou comercialmente desinteressante. Não há mais lucro na lagosta pra nós. Então resolvemos suspender a compra de lagosta”, diz o empresário Mark Klaimberg.
Entre os pescadores do Mucuripe, existe o temor de que, em pouco tempo, as famosas lagostas do Ceará sejam apenas lembrança. “Tem que acabar com isso, acabar com cacoeira e mergulhador, para que a lagosta possa renovar de novo, senão vai se acabar para sempre”, cobra o pescador José Eduardo de Carvalho. “Nós vivemos da pesca, não temos outro meio. E acabando a lagosta, acabou tudo”, constata.
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