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Tubarão bom é tubarão morto? Pra quem?

A matéria Tubarão bom, é tubarão morto, da jornalista Juliana Tinoco, suscitou uma grande discussão entre conservacionistas, pesquisadores, mergulhadores e o público.

   Por Marcelo Szpilman

Estava viajando e por isso não pude me posicionar como diretor do Instituto Ecológico Aqualung e do Projeto Tubarões no Brasil. Mas o faço agora, muito em função dos inúmeros e-mails recebidos questionando nossa opinião sobre o assunto.

Ainda que discorde da associação do título da matéria com as ações conduzidas pelo Comitê Estadual de Monitoramento dos Incidentes com Tubarões (CEMIT), acredito que seja plenamente plausível a colocação de argumentos contrários e favoráveis e que a polêmica gerada em torno de um assunto que envolve opiniões e interesses conflitantes possa ser positiva. Mas não podemos nos esquecer de que se trata de um problema que envolve grande complexidade e que por isso devemos deixar as "paixões" de lado e usar o bom-senso para analisar e debater a questão. Devemos também perceber que há uma enorme diferença entre estar no meio do problema e fora dele. Criticar as medidas tomadas pelo CEMIT, estando a quilômetros de distância e não tendo qualquer compromisso com a sociedade local, é muito fácil e confortável. Somente participando das discussões "in loco" e sofrendo as mesmas pressões, tem-se a verdadeira dimensão do problema a ser enfrentado e da responsabilidade de se defender uma posição, ainda que essa não seja a mais popular.

Em um primeiro momento pode parecer, como a matéria insinua, que estão simplesmente matando os tubarões para que os ataques cessem. Mas não é bem isso que está acontecendo.

Como já havia escrito no artigo Por dentro do Workshop Internacional de Ataques de Tubarão , em julho de 2004, a pesca seletiva com fins científicos, que faz parte do programa de pesquisa e monitoramento dos tubarões, sempre provocou muita polêmica e discussões em torno de suas motivações. As razões para tais medidas foram apresentadas nesse workshop por Fábio Hazin, diretor do departamento de pesca da UFRPE e presidente do CEMIT, e aceitas por todos os especialistas-palestrantes do encontro, brasileiros e extrangeiros. Concluiu-se que a pesca seletiva, cujo objetivo não é absolutamente caçar e extinguir os tubarões, é inevitável para se obter um maior conhecimento local das espécies envolvidas nos ataques, como o cabeça-chata e o tubarão-tigre. Ainda que não seja o caso dessas espécies, é importante esclarecer que o IBAMA, o CITES e a IUCN, proíbem ou recomendam a proibição da captura das espécies ameaçadas de extinção, exceto para fins científicos. No workshop foi apresentada uma previsão de captura máxima em um ano de até 100 indivíduos, número que estaria longe de ser impactante sobre as respectivas populações locais.

Nesse sentido, o CEMIT, que sempre se mostrou aberto às sugestões e críticas, que obviamente contenham fundamentação científica, aceitou a recomendação feita pelo especialista da África do Sul, Geremy Cliff, que, baseado em experiências em seu país, recomendou a utilização de anzóis maiores para tentar selecionar ainda mais o alvo da pesca. Minha recomendação também foi aceita pelo CEMIT; tirar o espinhel do fundo e colocá-lo à meia-água, já que as espécies até então capturadas eram quase todas bentônicas (com hábitos de fundo) e o objetivo da pesca era capturar espécies pelágicas. Com o uso do espinhel à meia-água, em princípio, evita-se a captura dos peixes de fundo.

Segundo os relatórios do CEMIT, ao longo de dois anos de trabalho foram capturados 22 tubarões potencialmente agressivos, sendo 16 tigres, 4 cabeças-chata e 2 galhas-preta, o que representa cerca de 1 tubarão por mês. Somados, o peso total não chega a 300kg, o que representa menos de 0,5% da captura anual de tubarões realizada pela pesca artesanal no Estado de Pernambuco, segundo estatística do IBAMA. Na pesca de atuns, em vários pontos do Brasil, é comum em um único lance de pesca a captura de mais de uma centena de tubarões. No próprio Estado de Pernambuco, existem barcos comerciais de pesca de tubarão com espinhel que capturam, a cada viagem, muito mais do que o trabalho de pesquisa e monitoramento capturou em quase dois anos.

As alterações no aparelho de pesca, recomendadas por mim no workshop, foram introduzidas e obteve-se uma redução significativa das capturas de outras espécies inofensivas. As capturas de tubarão-flamengo, por exemplo, caíram 97%, de tubarão-lixa, 85%, e do tubarão-bagre, 76%. Cabe ressaltar que todas as outras espécies, quando encontradas vivas, são liberadas. Isso têm permitido a realização de um trabalho de marcação, a partir do qual espera-se que seja possível estimar-se sua população local. Na etapa seguinte serão utilizadas marcas PSAT (Pop-up Satellite Archival Tags) no intuito de melhor compreender o comportamento dos tubarões. A partir dos dados gerados, vários trabalhos científicos já foram publicados, além de monografias e teses de mestrado e de doutorado.

Ainda que seja cedo para tirar conclusões definitivas, Fabio Hazin está começando a relacionar a pesca dos tubarões potencialmente perigosos com a ausência de ataques. Nos períodos em que o trabalho de pesquisa e monitoramento capturou tubarões (janeiro a maio de 2004, maio a julho de 2005 e setembro de 2005 a março de 2006) não houve ataques. Pode até ser uma simples coincidência, mas as experiências na África do Sul, já descritas no artigo sobre o Natal Shark Board, evidenciam que ao capturar as espécies agressivas em redes de proteção o número de ataques diminui consideravelmente. É justificável?

Nesse sentido, os 22 tubarões capturados foram pescados a uma grande proximidade da praia, havendo, portanto, uma razoável chance de que pudessem causar um ataque. Além dos impactos sócio-econômicos desses incidentes, existe também o lado humano do problema. Desde 1992, 17 pessoas perderam a vida e outras tanto tiveram mutilações severas nesse tipo de incidente. Será que a captura desses 22 animais, considerando-se que esse número não representa impacto em seus estoques naturais, justifica a relação custo-benefício? Essa é uma questão polêmica, mas que deve ser analisada pela sociedade, especialmente pelos cidadãos pernambucanos que sofrem suas conseqüências diretas.

Outro aspecto de grande relevância é o trabalho de educação que vem sendo realizado desde 1994, no início do surto de ataques. Desde então, centenas de escolas públicas e privadas já foram atendidas com palestras e informações sobre a biologia dos tubarões, a importância dos mesmos para o ecossistema marinho e a necessidade de sua conservação. No âmbito do CEMIT, o trabalho de Educação Ambiental nas praias, coordenado pelo Instituto Oceanário de Pernambuco, com o mesmo foco, constitui uma das quatro ações centrais do CEMIT, juntamente com o trabalho de pesquisa e monitoramento, recuperação ambiental e vigilância e fiscalização. Os resultados alcançados até o momento mostram que as ações do CEMIT têm sido eficientes no sentido de se reduzir a incidência de ataques.
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