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Mergulho em Salvador

Os baianos começam a descobrir os encantos do fundo do mar

   Se perguntassem a você qual cidade tem mais tradição em mergulho autônomo – aquele feito com cilindros de ar comprimido –, Salvador ou Brasília, o que você responderia? A resposta não é tão óbvia quanto parece. Apesar de estar no centro do país, cercada de terra por todos os lados e distante cerca de 900 quilômetros do mar, Brasília figura na segunda posição no ranking da NAUI (uma das quatro maiores empresas que emitem certificados de mergulho no Brasil, ao lado da PDIC, PADI e CMAS) que lista as cidades brasileiras com maior concentração de mergulhadores.

A capital federal, com 15%, empata com Rio de Janeiro e fica atrás apenas de São Paulo, que encabeça a lista com 40% dos amantes do esporte náutico. Já Salvador, que tem todas as condições geográficas para tanto, aparece em um tímido sexto lugar, com 3%, atrás de Belo Horizonte (10%), Recife (5%) e Florianópolis (5%). De uns anos para cá, no entanto, esse quadro vem se alterando: na esteira de uma tendência nacional, os baianos estão descobrindo os prazeres do fundo do mar.

"Dou aulas desde 1991 e de quatro anos para cá tem havido um crescimento constante na procura por cursos em Salvador", afirma o instrutor André Lima, dono da operadora de mergulho Aguatech. "Tivemos um aumento de cerca de 30%", completa Gilson Galvão, da Bahia Scuba, tendo como base comparativa o mês de janeiro de 2005 e de 2006. Já o número de saídas para mergulho nesse mesmo período teve um incremento de 253%, comemora Galvão.

No verão, alta estação, cerca de 80% dos que mergulham em Salvador são estrangeiros, muitos inclusive aproveitam para fazer o curso por aqui mesmo, com a vantagem de pagar em real. É nessa época também que se vê a maior procura por aulas. Natural, já que o sol e o calor são um estímulo a mais. Passada a estação, com o turismo em ritmo mais lento, os baianos começam a ganhar mais destaque na lista de alunos e nas operações das agências.

É o caso da nutricionista Michele Medeiros, 31 anos, que decidiu investir na aventura incentivada pelo ex-namorado. "Fiz um batismo [mergulho feito com acompanhamento de um instrutor, sem a necessidade do curso] um pouco antes do carnaval e fiquei apaixonada. Achei que fosse ter dificuldade em respirar, que iria ficar grudada no instrutor, mas não, me deu vontade de descobrir sozinha aquela imensidão", conta Michele.

MEDO SUPERADO - Para quem nunca mergulhou, o esporte parece estar muito próximo do radical. Isso acontece devido a medos comuns – e infundados, que costumam afugentar alunos, como um ataque de tubarões e o receio de se afogar, além da sensação de claustrofobia que atinge algumas pessoas.

"Em uma pesquisa americana sobre lesões em práticas esportivas o mergulho aparece em 22ª posição, empatada com boliche", tranqüiliza Gilson. De acordo com a pesquisa, no topo aparecem basquete, futebol, vôlei, tênis, bicicleta e até mesmo natação.

"Eu tinha medo de ficar sem ar, mas logo no primeiro contato com os instrutores e na primeira aula pude perceber que é um esporte extremamente seguro e que não há o que temer", defende a estudante Diana Leoni, 24 anos, que fez em janeiro o curso básico e já pretende partir para o avançado.

Mergulhar é como dirigir um carro. No começo parece ter comandos demais, espelhos em excesso e a atenção em tantas pequenas coisas ao mesmo tempo causam certa confusão. Com o tempo, a prática automatiza o processo. O mesmo acontece com o mergulho. "Num primeiro momento é estranho aquele equipamento pesado, as nadadeiras, a roupa apertada, a máscara, mas depois que você entra no mar e se acostuma, fica tudo natural", conta a administradora Thais Borges, 31 anos. Daí para se apaixonar de vez pelo esporte, é um pulo.

FENÔMENO NACIONAL - O aumento na procura por cursos de mergulho é um fenômeno nacional. Com a maior visibilidade da atividade, com filmes, novelas (em "Como Uma Onda", da rede globo, Sérgio Marone interpretou um instrutor de mergulho ao lado de outros dois personagens) e reportagens abordando o esporte, caem os mitos e desperta-se a curiosidade das pessoas.

Outra movimentação crescente que chama a atenção pelo país afora é a invasão das mulheres. "No início, 90% dos alunos eram homens, de um ano pra cá as turmas têm estado equilibradas", explica André. "Já está virando o Clube da Luluzinha", brinca Gilson. Sensação de paz na descoberta de um mundo novo: A sensação de paz durante um mergulho é natural, e está muito próxima às sensações despertadas pela prática da ioga. No Egito, inclusive, mais especificamente no Mar Vermelho, inventou-se uma nova modalidade de mergulho, a Yoga Diving, em que se pratica a técnica milenar debaixo dágua.

A sensação de relaxamento nas duas atividades é resultado, em grande parte, da respiração abdominal profunda e ritmada, uma das principais e mais antigas práticas orientais para se atingir o relaxamento pleno. A respiração pelo diafragma aumenta a capacidade de oxigenação do cérebro, melhorando as funções mentais. A mente fica mais clara e com maior poder de concentração.

"A respiração diafragmática atua no sistema nervoso para-simpático, que é o responsável pela sensação de calma. Se você perceber, uma pessoa tensa respira pelo peito e ombros, quando se está relaxado, dormindo por exemplo, a respiração é feita no abdômen", explica o professor de ioga Jeovah Pinheiro, da Casa da Yoga. E é pelo abdômen que se respira durante o mergulho.

OUTRO MUNDO – "O ambiente também provoca essa sensação", explica o instrutor André Lima, da Aguatec. Debaixo d´água, a única coisa que se ouve praticamente são as bolhas liberadas pelo regulador de ar. Durante o mergulho, movimentos quase não são necessários. Os braços quase não se movem. A pessoa apenas flutua, utilizando a respiração para se manter estável na água, e avança utilizando apenas as pernas. O mergulhador simplesmente desliza lentamente pela água enquanto contempla a flora e a fauna de um mundo submerso.

Em um certo sentido, quem mergulha visita um outro planeta. O mar, que parecia uma grande superfície compacta de água, ganha profundidade, dimensões e cores. Ali, no fundo do mar, descobre-se um banquete sensorial: peixinhos coloridos, listrados, prateados circulam entre corais em formato de cérebro, ou com milhares de pequenas bocas que abrem e fecham. Grandes paredões de 10, 20, 30 metros de profundidade trazem a sensação de estar voando em um cânion submerso. Rochas cobertas de vida, cavernas e navios afundados que se transformam em um ecossistema à parte completam o quadro, sem falar nas infinitas vidas pequeninas, só percebidas por aqueles não têm pressa e observam, atentamente, cada detalhe.
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