História do Mergulho:::

 

O mar   pela  sua  vastidão,   abrangendo  e   recortando   continentes,  ocupando  dois terços da superfície terrestre,  com   profundidades  das  mais variadas chegando a  atingir  os  11.000   metros  (Fossa das Marianas - Pacífico Ocidental) que daria  para   imergir com  sobra  o pico  mais  elevado do  mundo, o monte Everest com  8.845  metros4.  Com uma fauna e  flora  riquíssima,   portanto  com uma boa fonte de alimento,  trabalho e  lazer,  vem   atuando  na vida do homem de forma importante,  mesmo nos  tempos   mais remotos de sua existência.
 
Descobertas   arqueológicas  mostram indícios que o   primeiro   contacto  do  homem  com o meio aquático foi  realizado  na  pré-história,  provavelmente no Paleolítico6. O homem utilizava arpões   de madeira para a obtenção de peixes que fazia parte da sua dieta   nesta época,  como provam os achados de inscrições nas cavernas e   os ornamentos de conchas encontrados nos esqueletos na caverna de  Menton5.

A civilização cretense (3.000 - 1.400 a.C) utilizou o mar como a principal fonte de sua economia8.

Referências  sobre  os primeiros mergulhos datam de  algumas   centenas de anos antes de Cristo, com os pescadores de esponjas e   moluscos.  Durante  algumas  guerras,  já  nesta  época  existiam   mergulhadores  com equipamentos bem rudimentares  ou  desprovidos   deste, que faziam sabotagens nas embarcaçães inimigas6. Em Ilíadas   de Homero (750 a.C) há menções sobre mergulhadores que pescavam6.

Uma das histórias do passado envolve um mergulhador em parte   das guerras navais, relatado por Heródoto (460 a.C). Silas que   era um grego popular considerado herói pela brilhante atuação  na   captura  dos Persas abaixo de Xerxeres e forçou-os a trabalhar  a   bordo  de seus navios.  Contam que os Persas planejaram um ataque   surpresa ao navio grego Artemisium, e durante o front, Silas saltou  através  de  cabos para o navio persa rendendo  todos  os   tripulantes. A lenda conta que ele nadou uma grande distância por   baixo d'água até atingir o navio persa.  Era considerado o  Herói  da época1.

Certamente o primeiro aparelho de respiração subaquática foi   idealizado em 900 a.C. pelos assírios (fig.I.1. no alto). Consistia   em uma bolsa de ar fixada por correias na frente do mergulhador e   ligada a boca através de um tubo. Provavelmente era confeccionado   em couro.  Alguns acham que era utilizado como bóia,  outros como   implemento de mergulho8.
 
Aristóteles (333 a.C) descreveu o mergulho do seu discípulo,   "Alexandre,  O  Grande"  em  um sino  para  observar  as  defesas   submarinas  de  Tiro.  A  lenda conta que Alexandre  observou  um   enorme peixe que levou três dias passando pela vigia do seu  sino   durante o mergulho1, 6, 8 (fig.I.2).

 
Fig.I.2  Alexandre, O Grande mergulhando em seu sino.
 
Em 100 a.C. o Rei da Suécia enviou sua frota contra o pirata   Oddo,   que  tinha  a  reputação  da  magia  atra-vés  das  águas.   Mergulhadores  suecos  pontuaram este mito fazendo  orifícios  no   fundo do navio,  durante a noite.   Na manhã seguinte Oddo e seus   homens,  fu-riosos  atacaram  os  Suecos  que  os  haviam  le-sado,   matando-os8.
 
Por  volta  de  1511 com a publicação do "De  Re  Militaris"   escrito  por  Vegetius,  descreve  um tipo  de  ca-pacete  rígido,   alimentado de ar por um tubo ligado à su-perfície (fig.I.3).
Fig.I.3.   À  esquerda escafandro idealizado por Vegetius, (1511) e à direita aparelho de circuito fechado idealizado por Giovani Borelli (1680).
 
Leonardo  da  Vince idealizou alguns tipos de  aparelhos  de   respiração subaquática.  A maioria deles tinham em comum um  tubo   que ligava o mergulhador a superfície.  Idealizou também, trajes,   máscaras e capacetes de mergulho.  Estas invenções certamente não   obtiveram  sucesso,  porém  serviram  de base para o  advento  de   outros apare-lhos tecnica-mente viáveis1 (fig. I.4).
 
Fig.I.4.  À esquerda snorkel idealizado por Leonardo da Vince (1500) e à direita escafandro idealizado por Freminet (1772).
 
Provavelmente  o  primeiro aparelho de circuito fechado  foi idealizado  pelo  astrônomo e professor de  matemática  italiano,   Giovanni Borelli,  em 1680. Este aparelho consistia basicamente em   uma  grande  bolsa de ar,  com uma janela de vidro em  sua  parte   anterior,  que abrigava a cabeça do merglhador.  O ar  da  bolsa   era  "re-respirado",  sem que no entanto, este passasse por algum   tipo  de filtro o que levou a um grande inconveniente,  o aumento   rápido  e  progressivo da concentração do dióxido de  carbono  na   bolsa do aparelho,  tornando-o inviável.  Além da bolsa de ar,  o   mergulhador  levava um cilindro com um pistão afim de  ajustar  o   seu equilíbrio na água1 (fig.I.3).
 
Em  1715  o  inglês  Jonh Lethbridge idealizou  um  tipo  de   escafandro  rígido  que  consistia em  um  cilin-dro  de  madeira,   semelhante a um barril,  totalmente ve-dado. O mergulhador entrava   por  uma escotilha localizada na parte anterior do aparelho e  se   alojava deitando de barriga para baixo. Havia dois orifícios para   colocação  dos membros superio-res que ficavam do lado de fora  do   es-cafandro  e uma vigia para permitir a visualização do  am-biente   submarino.   Era   suprido  através  de  um  fole  lo-calizado  na   superfície.  Há relatos de que seu apa-relho teria atingido os  20   metros  de profundidade e chegou a realizar vários trabalhos  com   sucesso8 (fig.I.5).
 
Baseados no escafandro rígido de Lethbridge, Fréminet (1772) (fig.I.4)  e  Kingert  (1797)  desenvolveram  outros  tipos  de  escafandros   rígidos, que possibilitaram maior mobilidade ao mergulhador, pois   as  pernas ficavam livres permitindo que o mergulhador andasse no   fundo,  porém mantendo as mesmas características do escafandro de   Lethbridge,  a  dependência  de  uma fonte de  ar  na  superfície1 .
 
Fig.I.5. Escafandro rígido de Lethbridge (1715).
 
Em  1819 o alemão Augustus Siebe fundador da Siebe Gorman  &   Co. de Londres (Fábrica de Implementos de mergulho) aperfeiço-ou o   capacete tipo aberto que já existia, adaptando um traje ao mesmo   que  ia até a cintura dando origem ao seu primeiro escafandro  de   traje  aberto (open  dress), onde o ar  entrava  pelo   capacete e saia pela cintura.  Este traje tinha um inconve-niente:   se  o  mergulha-dor  abaixasse a cabeça ou se  recurvasse  a  água   poderia  entrar alagando o  capacete.  Posteriormente,  em  1837,   Siebe  desenvolveu  o  seu escafandro de  traje  fechado  (closed   dress) que consistia no mesmo capacete  do  anterior   adaptado a uma roupa in-teiriça,  totalmente estanque.  A vantagem   deste tipo era propiciar maior segurança ao mergulhador,  pois se   ele  se recurvasse ou até mesmo virasse de cabeça para baixo  não   apresentaria o mesmo perigo que o ante-rior.  Os  escafandros  de  Siebe (traje aberto  e  fechado)  foram   usa-dos  largamente,  sobretudo,  no resgate do navio inglês Royal   George.
 
Fig.I.6 À esquerda:  primeiro capacete Siebe Gorman (1819). Ao centro:  o traje aberto (1819) e à direita o traje fechado (1837).
 
Posteriormente,  foram aperfeiçoados, com novas válvulas   de  admissão e exalação de ar,  chegando até mesmo  a  utilizarem   sistema  de comunicação.  São usados nos dias atuais apenas  como   meio  de distração,  pois o uso nos trabalhos submersos já ocupou   seu lugar no passado3, 6.
 
Fig.I.   Resgate do Royal George naufragado em 1782 e resgatado em 1817.
 
Fig.I.  Escafandro de Siebe Gorman adaptado com sistema de comunicação subaquática.
 
W.H.  James  em  1825  foi  quem  primeiro  utilizou-se  dos   reservatórios de aço para o mergulho,  não obtendo su-cesso devido   a  sua  restrita autonomia,  sendo posterior-mente  superado  pelo   escafandro fe-chado de Siebe8 (fig.I.5).
 
Fig.I.6. James, WH, (1825) .
 
Dois  franceses Rouquayrol e Denayrouze também adapta-ram  um   cilindro  de  ar comprimido ao mergu-lho,  porém não  se  torna-ram   muito  populares  e  os seus  exemplares  inexistem,  pois  foram   perdidos durante a guerra1, 3, 8 (fig.I.7).
 
Fig. I.7. Rouquayrol e Denayrouse
 
H.A.  Fleuss,  em  1878,  trabalhando na Siebe-Gorman &  Co,   de-senvolveu  um  sistema  de  respiração de  circuito  fechado  -   utilizando  a soda cáustica e potassa (NaOH+KOH) para a  absorção   do  CO2.  Fleuss,  junta-mente com R.H.  Davis,  adaptaram a  este   aparelho,  um  cilindro  de  oxigênio e  uma  válvula  automática   propiciando  um melhor rendimento3.  Este aparelho  foi  utilizado   como  material  de segurança para permanência em locais  contendo   gases  tóxicos e para o escape de submarinos durante a  Primeira  Guerra   Mundial.
 
Fig.I.  Aparelho de respiração de Davis, usado para escapes de submarinos.
 
Contemporâneo de Fleuss,  na mesma data 1878, o fisiologista   francês Paul Bert publicava seu livro "La Pression Ba-rometrique",   sendo, por-tanto, um dos que primeiro estu-dou a fundo, com o cu-nho   científico,  as  al-terações do corpo humano quando se expunha  ao   hiperbarismo.  Fez  vá-rios estudos sobre a doença des-compressiva,   intoxicação pelo oxigênio (efeito Paul Bert) e Barotraumas8.
 
Em 1925 o oficial francês,  comandante Le Prieur desenvolveu   um  aparelho autônomo que utilizava ar1 em contrapartida com o  de   Fleuss  e  Da-vis que usava oxigênio puro.  A  respiração  com  ar   permitia   que   os   mergu-lhadores  descessem   mais   fundo   e   permanecessem  lá por mais tempo sem que os riscos da intoxicação   pelo oxigênio os acometessem,  como acontecia freqüentemente  com   os aparelhos de circuito fechado de Fleuss e Davis.
 
Fig.I.  Aparelho de Le Prieur.
 
O  aparelho  de Le Prieur consistia em um cilindro  de  alta   pressão contendo ar comprimido no seu interior, preso à frente do   mergulhador.  Possuía uma válvula manual de controle do fluxo  de   ar  que era ligada a uma máscara orofacial por in-termédio de  uma   man-gueira.  A  medida que se descia era necessário que se abrisse   mais esta válvula.  Este aparelho foi amplamente difundido  sendo   utilizado  até  mesmo  nas piscinas dos grandes clubes  de  Paris   pelos nobres e pela burguesia como meio de diversão.
 
Com  o advento deste aparelho o homem deu o  primeiro  passo   para  abandonar  os escafandros pesados e libertar-se do  "cordão   umbilical" que ligava-o a superfície,  permitindo maior liberdade   de ação, que nadasse em qualquer direção, em contrapartida com os   esca-fandros  pesados em que o homem ficava quase que ancorado  ao   fundo.
 
O aparelho de Le Prieur Possuía um sério problema; a válvula   de  redução da pressão do ar era de fluxo contí-nuo,  o  que  vale   dizer   que  o  ar  saia  continuamente,   havendo  portanto   um   desperdício  considerável do ar contido no  aparelho,  resultando    em uma menor autonomia. Porém, em 1943, o capitão J.Y. Cousteau e   o  especialista  em gases comprimidos Emile Gagnan que  na  época   fazia   estudos   com  válvulas  de  gasogênio   para   veículos,   desenvolveram  e aperfeiçoaram o primeiro regulador de  mergulho,   propiciando,   assim,  um  melhor  rendimento  aos  cilindros  de   mergulho2.
 
Atualmente  existem  vários  tipos e modelos de  aqua-lungs,   todos  tendo como base o cilindro de Le Prieur e o  regulador  de   Cousteau-Gagnan (Fig. I.8).
 
Fig. I.8. À esquerda, o regulador  Cousteau-Gagnan e à direita o capitão Jacques-Yves Cousteau .
 
O crescente investimento em pesquisas mari-nhas,  em busca de   novas   riquezas,   levou  o  homem  a  desenvol-ver  técnicas   e   equipamentos para descer cada vez mais profundo,  vencendo várias   frontei-ras  em busca de novos horizontes,  chegando atual-mente  a   trabalhar  a  450  metros  de  profundidade  utilizando  misturas   gasosas espe-ciais. No campo de pesquisas já atingiu os 686 metros  de profundidade no projeto Altantis III, Duke Medical Center, EUA em 1981 (Fig. I.9).  Tudo isto requerendo uma altíssima tecnologia e   custo por parte dos investidores.
 
Fig. I.9. Equipe de tres homens expostos a uma pressão equivalente a um mergulho de 686m / 2250 pés. Projeto Altantis III, Duke Medical Center, EUA em 1981.
 
No  Brasil o início do mergulho se deu provavelmente durante   a construção do cais Pharus (Praça XV - RJ) no tempo do  Império,   dando  continuidade  com as construções dos cais da Gamboa e  São   Cristovão por firmas francesas e o píer da Praça Mauá  (1945),  o   Cais  de  Minério  (1949) e o antigo Cais de  Carvão  (1960)  por    firmas americanas (Christiane Nielsen e outras) onde ainda usavam   os "Escafandros de Casco" (Siebe - traje fechado).
 
Porém,  em 1958 surgiu a primeira firma totalmente  na-cional   voltada,  exclusivamente,  às  atividades subaquá-ticas,  a EBOS -   Empresa   Brasileira   de   Operações   Subaquáticas,  atuando   pioneiramente  na  derrocagem  das  pedras do  Aracaju  no  porto   Carvoeiro Henrique Laje em Ibituba,  Santa Catarina.
 
As  atividades  amadorísticas do  mergulho  iniciaram-se  na   década  de  quarenta,  quando  alguns pilotos  da  antiga  PANAIR   (comandantes  Edú e Lefévre),  traziam do exterior equipamentos de   mergulho contribuindo,  sobretudo, para o desenvolvimento da caça   submarina.  A caça submarina  teve um grande impulso na década  de   cin-quenta com a criação de vários clubes, equipes e a fundação da   Associação  Brasileira de Caça Submarina  (ABCS),  que promoveu em   1959  o campeonato internacional de caça sub-marina em  Angra  dos   Reis  (RJ).  Desde então o mergulho amador no Brasil  evoluiu   ascendentemente,  tendo  sua maior expansão após o lançamento  da   Revista Mergulhar a Descoberta do Mar,  em 1982,  quando houve  o   aumento  do  número  de escolas,  cursos e  fábricas  de  artigos   voltados ao assunto.
 
 Fig.I.  Revista "Mergulhar, a descoberta do mar",  lançada em 1982.
 

Nos inícios dos anos 80,  o mergulho profissional obteve um grande  impulso   graças  à  Petrobrás, com suas prospecções petrolíferas na bacia de Campos e no litoral do Espirito Santo  chegando  a   realizar os mergulhos mais profundos  já  feitos para a execução de trabalhos submarinos   (350 metros ).

Também nos anos 80, com recursos da Petrobrás efoi criado o maior centro hiperbárico da América Latina localizado na Base Naval Almirante Castro e Silva na  Ilha  de  Mocanguê, RJ (Ministério da Marinha) com o objetivo de pesquisa na área de mergulho, porém deivido a um acidente com uma das câmaras de ensaio, este centro permanece ainda desativado até que se conclua o processo instaurado.

Atualmente, nos países do primeiro mundo, apesar de se investir pesado em em centros de pesquisa na área de medicina e fisiologia do mergulho , há uma tendencia de não se expor o homem a profundidades cada vez maiores, devido ao alto risco das operações além de  gerar sérios problemas trabalhistico. Isto certamente explica o fato do crescente desenvolvimento de pesquisas  no campo da criação de robôs e submersíveis, inclusive aqui no Brasil.

 

Referências:

1. Carrier, Rick & Barbara. How It All Began; Dive, 1-16, 1973.
2. Cousteau, JY. Primeiros Mergulhos e A Liberdade no Mar; Os Escafandros Autônomos. Cousteau  O Mundo Submarino, Exploração. Volume 4;  50-3, 1980.
3. Davis, RH. Dive History; Deep Dive: 15-28, 1960.
4. Engel, L.  The Sea, 25-6, 1971.
5. Ribeiro, IJ.  - Trabalhos Sob Condições Hiperbáricas, Medicina do Trabalho e Doenças Profissionais: cap 10; 319-21, 1983.
6. Roscoe, K. Introduction; Undersea Exploration: 14-33, 1971.
7. Solá, CV. En La Frontera Del Mundo Submarino; Manual Del Escafandrista: 3a edição, 17-21, 1973.
8. Vaissiere, R. Introdución; L'Homme et Le Monde Sous-Marine, 4-20, 1969.